sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

*A INTOLERÂNCIA NO PÓS 11 DE SETEMBRO, SOB À ÓTICA DE "CRASH – NO LIMITE" (2004)



A película de Paul Haggis conseguiu não só agradar aos críticos e conquistar o Oscar (2006), como também trouxe à tona uma discussão presente, mas pouco olhada sob o ângulo que Haggis o mostra em Crash – No Limite (2004).

Para esclarecer melhor, é necessário o entendimento de que o filme mostra o encontro de vários personagens totalmente diferentes nas ruas de Los Angeles: uma dona-de-casa e seu marido, promotor público, da alta sociedade; um lojista persa; um casal de detetives da polícia - ele afro-americano, ela latina -, que também são amantes; um diretor de televisão afro-americano e sua esposa; um mexicano especialista em chaves; dois ladrões de carros da periferia; um policial novato; e um casal coreano de meia-idade. Só por essa primeira visão já se pode ter ideia da amplitude de culturas e etnias que ali se encontram.

Desse modo, mesmo perdendo muito pela brevidade da síntese, o filme desenrola-se de uma maneira onde quase todos se encontram nas 36 horas que se passam dentro da diagese do filme. Tanto o começo quanto o filme de Crash se dão por cenas onde ocorrem acidentes (o nome crash em inglês quer dizer estrondo, o que poderia ser relacionado ao barulho do acidente), tais acidentes nos remetem a questão da intolerância não só no trato com as pessoas, mas a todo tipo de intolerância imaginável: social, religiosa, racial, entre outros.

A trama é fragmentada em vários núcleos narrativos, todos imersos em sua apreensão de mundo e em seus preconceitos próprios.Há o caucasiano com preconceito em relação aos negros e latinos; há os negros com preconceitos dos brancos e dos próprios negros; há árabes (categorização que inclui, no filme, todos os muçulmanos, mesmo que a maioria islâmica do mundo não seja falante do árabe ou nascida na Arábia Saudita) com preconceito dos latinos; há os chineses, os porto-riquenhos, os tailandeses, os pobres, os ricos, os bandidos e os policiais.

Crash demonstra, com um realismo surpreendente, que preconceito e discriminação não são um "privilégio" dos brancos burgueses, que todos nós, independentes de raça e classe social, já possuímos uma pré-compreensão do mundo que nos circunda e que é através dela que escolhemos nossos círculos de amizade, os ambientes que frequentamos e as pessoas que costumamos evitar e tudo isso leva a capacidade de julgar o próximo e lidar com ele através deste julgamento.

Para justificar o título dado a estes comentários, merecem destaque algumas considerações. Entre elas podem-se destacar as problemáticas socioeconômicas e culturais advindas após o terrível atentado terrorista contra as Torres Gêmeas no World Trade Center (EUA) no dia 11 de setembro de 2001.



A primeira delas refere-se à não tão longínqua Guerra Fria dos EUA versus URSS, que foi na verdade uma guerra ideológica e nem por isso deixou de provocar profundas transformações no mundo. Assim, com os ideias socialistas derrotados, a grande potência dos Estados Unidos (capitalista por excelência) passou a ser um símbolo de poderio nunca antes visto, inabalável assim como sua economia liberalista e a globalização comercial e financeira que se erguia.
Desta maneira, apesar das questões etnográficas e antropológico-sociais não deixarem de existir, foi apenas no pós 11 de setembro que a tão aclamada democracia americana e sua incontestável influência dominadora, deixou mostrar uma face ainda inobservável: a fragilidade do sistema capitalista. Para que a intolerância em toda sua multiplicidade de significados surgisse, não demorou muito.


Crash exemplifica e ilustra de uma perpesctiva elogiável o tema tratado aqui, trazendo uma mensagem que outros até poderiam dizer ser simplista ou ingênua, entretanto mesmo sendo caracterizada desse modo, ela não deixa de transparecer um fio de esperança que ainda resta na humanidade.




LOPES DA SILVA, Anderson


*Resenha crítica escrita como forma de avaliação para a disciplina de Comunicação e Cultura Brasileira, ministrada pelo Prof. Esmair Camargo Lopes

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

*APOCALYPTO: O "QUERIDINHO" DOS HISTORIADORES E ANTROPÓLOGOS


Tão cercado de polêmicas (o que fez com que a bilheteria aumentasse em U$ 14,1 millhões só na estreia) e não poucos erros históricos, Apocalypto também possui aspectos positivos a serem analisados no decorrer da história dirigida por Mel Gibson.

Aliás, com mais essa direção e roteiro (sendo o roteiro compartilhado com Farhad Safinia), o diretor comprova o seu fascínio por cenas realistas ao extremo, para não dizer sangrentas ao extremo, e pela interessante forma de representar o declínio de uma civilização que se corroe por dentro.

Mel Gibson, filho de Huton e Anne Gibson, nasceu em 3 de janeiro de 1956 e Nova Iorque, EUA. Depois de algum tempo, Gibson e sua família se mudaram para a Austrália e foi lá que ele se formou em Artes Dramáticas (pela Universidade de Sidney). Começou a carreira em séries televisas e logo estreou no cinema com o filme Mad Max (1979), como protagonista. Após isso, Mel Gibson estrelou outros filmes de expressão e ganhou o sucesso da crítica (e o Oscar de Melhor Diretor) por dirigir seu primeiro longa-metragem: “Coração Valente”. Sua filmografia (como diretor e roteirista) ainda inclui os longas-metragens O Homem sem Face (1993), o já citado Coração Valente (1995), A Paixão de Cristo (2004) e este que aqui analisaremos Apocalypto (2006).

Se usando da mesma tática do seu último filme, que era todo falado em latim e aramaico, Mel Gibson também passa ao espectador mais realidade ao ouvir os atores (em sua maioria mexicanos) falando em yucateco (um dialeto da língua maia já quase morto). Toda a trama se inicia em uma tribo de maias primitivos, que tem por meio de sobrevivência a caça selvagem. É nesse local que vive o personagem principal, Jaguar Paw (Rudy Youngblood), jovem guerreiro da tribo que já possui um pequeno núcleo familiar: um filho pequeno e a mulher grávida novamente.


Todos vivem em paz com eles mesmos e a natureza, até que são surpreendidos por uma invasão de guerreiros de outra tribo maia, que mais adiante se percebe ser bem mais “civilizada” (em termos de roupagem e administração). Na terrível luta muitos dos primitivos e dos “civilizados” sucumbem, mas uma grande parte de homens e mulheres fortes são levados para fora da tribo. Porém antes de ser capturado, Jaguar Paw esconde sua mulher Seven (Dalia Hernandez) e seu filho em uma gruta profunda. Após isso é obrigado a ver seu pai sendo morto e ele próprio ser amarrado com os outros de sua tribo, e serem levados para uma tribo desconhecida.

As crianças e alguns idosos ficam desolados pela mata, sozinhos. A tribo que os captura os faz passar, durante todo o percurso, por situações terríveis; como atravessar uma correnteza de rio com braços e tronco atados, penhascos altíssimos e sem falar na violência explícita a que são submetidos (aliás, outro aspecto que polemizou ainda mais a obra). Também nesse caminho eles encontram uma menina maia com uma doença contagiosa, que adverti a tribo mais civilizada para que tomem cuidado com aquele que leva a pata de jaguar (ou seja, uma profecia que faz menção clara a Jaguar Paw).



Ao chegar à tribo vizinha, Povo da Bandeira do Sol, é possível notar que se trata também de uma tribo maia, pela língua e por algumas semelhanças nos vestuários e acessórios (piercings, pintura e cicatrizes enormes provocadas por eles mesmos como mostra de bravura). O que os distingue da tribo mais primitiva, é o sistema hierárquico de governo e a prática de escambo, além disso, há uma grande concentração de pessoas, o que determina claramente um maior desenvolvimento daquela povoação.

Assim, o objetivo daquela captura se define rapidamente aos olhos de todos: as mulheres novas são vendidas numa espécie de mercado humano e os jovens rapazes, pintados com uma tinta azul índigo, são levados ao alto de uma pirâmide tipicamente maia, para serem sacrificados a Kulkulan, um dos deuses de veneração do povo politeísta que eram os maias. O sacrifício seria necessário para que voltassem a prosperar suas safras e que as doenças se afastassem de seu povo.

Desse modo, ante todo o povo maia, os capturados têm suas cabeças degoladas no alto da pirâmide por uma espécie de sacerdote. Quando chega a vez de Jaguar Paw, ocorre um eclipse solar o que indica a saciedade do deus quanto ao sacrifício. Por isso, durante toda a captura ele é chamado de “Quase”, pelos outros, por sempre escapar da morte (na realidade ele cumpria sem saber a profecia da menina).

Quando tem a chance de escapar, Jaguar Paw mata o filho do grande guerreiro chefe, então segue mais uma perseguição por entre a mata. A ‘caçada’ só termina com a morte do grande guerreiro da tribo civilizada, do mesmo modo que havia morrido o animal caçado da primeira cena do filme. Já no final, Jaguar resgata sua mulher e seus filhos (a mulher havia entrado em trabalho de parto dentro da gruta, quando esta estava sendo inundada pela água da chuva),e lá ao longe aparece a esquadra dos espanhóis que chegavam para colonizar o povo maia.

Analisando sob a ótica cultural e antropológica, o filme Apocalypto nos mostra dois povos da mesma cultura, mas com desenvolvimento social e até econômico superiores. Do mesmo modo, o que ele tenta passar ao espectador é esse paradoxo onde civilizado age como primitivo, fazendo assim uma rápida analogia com os dias contemporâneos. O aspecto da violência é outro grande assunto a ser debatido na obra, porém o que se torna relevante é analisar a importância religiosa que havia nos sacrifícios humanos para os maias. Se houve exagero ou uma carnificina desnecessária por parte de Mel Gibson, os próprios descendentes do povo maia já manifestaram a sua revolta com a quantidade de corações arrancados durante o filme.


Na tribo de Jaguar Paw, é natural que se apresentem seminus ou possuam ainda vários adornos pelo corpo, principalmente alargadores. No que diz respeito à formação social da tribo, nitidamente se percebe a importância da prole para a vida dos maias, ali a família simboliza uma união estável e até mesmo de status respeitável (é possível ver que em cenas cômicas, um dos personagens da tribo não consegue ter filho e é ridicularizado pela sogra perante todos os moradores dali). Já a questão dos anciãos, é mais clara ainda, quando numa típica comemoração ao luar, o maia mais idoso é quem repassa as histórias oralmente à tribo. É ele que detém sabedoria e experiência, é ele quem aconselha a tribo sobre a insatisfação do homem (outra analogia profunda com o materialismo dialético).

A mulher maia é representada no filme sem muito destaque e as crianças também possuem papel social secundário durante a trama.

Ainda em relação à distinção dos dois povos, é possível ver que pela pintura e o vestuário na tribo civilizada há separação social, ou seja, o rei e a rainha do Povo da Bandeira do Sol têm um adorno maior de pedras preciosas e plumagens únicas. Já os guerreiros se diferenciam não só pelo uso das armas, mas também pelo uso de acessórios como ossos de animais e pela rudeza de suas cicatrizes mais avantajadas. O restante da população tem uma vestimenta bem similar uns com os outros, sendo diferentes apenas dos que vestem uma espécie de pano entre as pernas e têm o resto do corpo encoberto pela poeira (isto é, os escravos que aparecem nitidamente trabalhando nas construções da tribo).

No tocante aos erros históricos que permeiam a obra e dificultam uma análise mais profunda, é difícil crer que uma obra que custou 40 milhões de dólares e foi gravada nas florestas do sul do México (ambiente quase exato do modo de vida dos maias), tenha se esquecido de retratar a cultura maia que não a visual com mais precisão (não é apresentado durante o filme, as invenções ou conhecimento astronômico dos mais e nem a complexa e significativa cultura maia). E o pior erro de Mel Gibson, foi tentar mostrar que as sociedades mais só foram vencidas pelos espanhóis porque estavam desestruturadas internamente. Quer dizer, é sim verdade que a etnia maia teve conflitos internos, porém a chegada da esquadra espanhola com os colonizadores só se daria 300 anos depois da destruição da última cidade maia.

Quanto à língua falada pelos personagens (inclusive interpretados por doze atores de origem maia), esta sim foi duramente criticada pelos falantes nativos. Mais uma mostra de que a pesquisa etnográfica foi feita superficialmente, pois segundo os nativos, até mesmo as vogais não eram alongadas quando necessárias, somente a atriz-mirim Isidra Hoil (a menina que pressagia a vida de Jaguar Paw e o fim dos maias) e o velho ancião, Espiridion Acosta Cachê, da tribo primitiva o faziam fidedignamente.

Apocalypto tem seu prestígio mais visualmente do que historicamente e denota que para a indústria cultural ele é uma ótima obra que mistura cenas épicas com ação, todavia para fins de estudo antropológicos, não passa de mais um filminho com muitas informações desconexas e sem qualquer linha histórica ou cronológica fidedigna.




LOPES DA SILVA, Anderson


*Resenha crítica escrita como forma de avaliação para a disciplina de COMUNICAÇÃO E CULTURA BRASILEIRA, ministrada pelo Prof. Esmair Lopes Camargo

*AVALIAÇÃO DE TEORIA DA COMUNICAÇÃO I

MARSHALL MCLUHAN

01) O que McLuhan quis dizer com o termo “Ovo Eletrônico”?

02) Explique a idéia de Aldeia Global.

03) Como a noção proposta por McLuhan, “O meio é a mensagem”, pode ser aplicada às Novas Tecnologias da Informação e Comunicação?

Respostas

01) McLuhan ao usar o termo “Ovo Eletrônico”, fala claramente de um mito cosmogônico (que procura “desvendar” a origem do Universo através de estórias fantasiosas, pois como já se sabe, são mitos) e assim caracteriza o planeta se transformando em um ovo eletrônico encoberto por redes, que interligam tudo. Dessa forma, para McLuhan as novas tecnologias seriam apenas uma extensão do corpo humano: como a roda seria uma extensão dos pés, o livro uma extensão dos olhos, as roupas uma extensão da pele, circuitos elétricos uma extensão do cérebro (sistema nervoso central) e o telefone uma extensão do ouvido. Esse novo ambiente criado e formado pelo o próprio homem, destina-se a moldar os seus padrões de percepção do mundo e de si próprio.

02) A “Aldeia Global” de McLuhan, poderia ser definida com a ideia de que individualização já não existe mais, agora todos os atos e suas conseqüências passariam a ser coletivas. O próprio globo passaria a agir como uma verdadeira aldeia, é o chamado processo de "tribalização". Assim, para McLuhan a “Aldeia Global” seria nada mais do que a volta de um tipo novo de comunicação, não mais apenas “tipográfico ou visual”, que aconteceria nas aldeias: as pessoas estariam cada vez mais perto uma das outras e dessa forma a comunicação ocorreria muito mais rápida e seria instantaneamente compreendida pelos outros (vale ressaltar que nem por isso eles todos deveriam ser iguais e compartilharem das mesmas idéias). Nos tempos de McLuhan (que nem eram tão antigos assim pois ele viveu até a década de 80), a “musa” das comunicações, que possibilitava o acesso a essa tal Aldeia Global, era televisão (que já possuía nessa época o vídeo tape e as cores). Desse modo podemos dizer que se McLuhan vivesse em nossos dias, a Internet seria por ele compreendida como a mais importante ferramenta para a construção concreta de uma Aldeia Global, pois na grande rede existe a comunicação Todos e Todos, diferentemente da televisão onde a comunicação se processa através do modelo Um e Todos (o que de certa forma inviabiliza uma maior interação e participação das pessoas).

03) Quando McLuhan diz que o meio é a mensagem (ou a mass –age) , podemos atentar ao fato de que o meio é geralmente pensado (no atual modelo de comunicação de Shannon e Weaver) como um simples canal de passagem e transmissão de conteúdo comunicativo, mas para McLuhan o “meio” deve ser entendido como um elemento determinante na comunicação (pois tanto pode determinar uma forma positiva quanto negativa de acordo como é veiculada essa comunicação). Já no âmbito das Novas TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação), é interessante relembrar que cada vez mais tem se dado “peso e valor” quanto ao meio em que se propaga a comunicação, pois dependendo da forma de como é recebida essa informação (escrita ou oral, pelo rádio,tv ou internet),em cada caso tem-se diferentes modos de compreender e perceber detalhes do conteúdo da mensagem. Por isso McLuhan considera o meio tão importante no processo da construção da comunicação.






EDGAR MORIN


04) Explique a relação entre os mitos e a elaboração do “star system” hollywoodiano em Edgar Morin.

05) Enumere os principais arquétipos e desenvolva um de modo mais aprofundado.



Respostas

04) Para compreendermos melhor o que vem a ser “star system”, é necessário explicar que foi a partir de 1919, passando por 1931 e 1932 (época áurea do ‘star system’), que a indústria cinematográfica de Hollywood passou a orbitar em volta das estrelas (atores que passaram de desconhecidos a quase deuses) e suas vontades. Assim como os mitos (sejam eles quais forem), a partir da década de 20 os anônimos atores começaram a se tornar verdadeiras estrelas e desse modo ficavam na mente das pessoas como objeto de culto, adoração e eram por muitos, considerados não-mortais; sua forma de viver estava muito acima de qualquer outra vida comum. Suas relações amorosas se pareciam com a de grandes deuses das mais variadas mitologias: eles se casavam, separavam e até recusavam casamentos se não fossem com grandes aristocratas e tudo isso, de certa forma intervinha na vida dos espectadores. Destaca-se aqui que o "star system", criando suas "estrelas" que são tratadas com a máxima importância, inclusive financeiramente, tem se mantido vivo e forte até hoje (inclusive pela força que recebe dos meios de comunicação e mídia).


05) Os principais arquétipos femininos são: ‘Virgem Inocente’ (ou Rebelde), ‘Vamp’ (mitologia nórdica), ‘Grande Prostitua’ (mitologia mediterrânea), ‘Divina’ (junção da Virgem Inocente com a Grande Prostituta) e ‘Femme Fatale’ (junção da Vamp com a Grande Prostituta). Já os arquétipos masculinos mais importantes são: ‘Herói Cômico’ (como C. Chaplin) e o ‘Aventureiro’ e o ‘Herói Romântico’ (o ator Rodolfo Valentino assemelha-se mais a uma síntese entre os dois últimos arquétipos citados, tendo sempre como referencial ser um ídolo do amor que realizaria feitos inimagináveis.)
A Divina seria uma mulher tão misteriosa e soberana quanto a citada Femme Fatale e tão pura e sofredora quanto a Virgem Inocente. Como característica psicológica poder-se-ia notar que o arquétipo feminino da Divina se encontra perdida em seus sonhos inacessíveis (por isso ela é tão misteriosa), tendo como especial representante no cinema de Hollywood, a atriz Greta Garbo. Aliás, a mesma atriz de nacionalidade sueca, mas que brilhou no cinema americano, foi por décadas o referencial de mulher elegante na moda, pois seu visual sofisticado atraía tanto quanto suas sobrancelhas e pálpebras marcadas com maquiagem (nota-se aí que o arquétipo da Divina por ser uma mescla entre a V. Inocente e a G. Prostituta, “herdou” da Inocente seus olhos crédulos, grandes e misteriosos).

LOPES DA SILVA, Anderson

*Avaliação da disciplina de Teoria da Comunicação I, ministrada pelo Prof. Ms. José Abílio Perez Junior

domingo, 6 de dezembro de 2009

*CAPOTE, O INDECIFRÁVEL.

Truman Capote, sua vida e obra (única, diga-se de passagem). É possível unir e ainda por cima, narrar todos esses elementos em apenas 98 minutos? Bennett Miller, diretor da película Capote (2005), conseguiu.

Porém, a verossimilhança com o real ao contar a trajetória do escritor e jornalista Truman Capote e também comentários acerca da enigmática vida do autor de A Sangue Frio (1965); é o que pretendemos discutir nessa resenha.

O diretor Bennett Miller, é um estadunidense formado em Teatro pela New York State Summer School of the Arts (NYSSSA) em 1984. E mesmo com pouquíssima visibilidade no cenário cinematográfico internacional, conseguiu produzir um drama (com características autobiográficas) que de certa forma, proporcionou que se conhecesse não apenas a vida já adulta do jornalista Truman Capote ( Philip Seymour Hoffman), mas também a misteriosa forma de agir e pensar deste que se consagrou como o pioneiro do gênero que se conhece por new journalism ou jornalismo literário.

O desenrolar do enredo se dá pela história do assassinato da Família Clutter, na pequena Holcomb (no estado do Kansas - EUA). Todavia, o assassinato da garota Nancy, seu irmão e seus pais serve de pano de fundo para a trama, bem como a relação de Capote com Perry Smith (uma relação bem mais próxima) e com Richard Hickock (este com uma aparente frieza superior a do colega de crime), ambos, assassinos dos Clutter.

Desse modo, redigindo para o The New York Times, quando se dá o fato (em 15 de novembro de 1959), o protagonista lê a notícia sobre o assunto no mesmo jornal. Interessa-se pela temática e recebe apoio de seu chefe Willian Shawn para naquela noite ainda viajar ao Kansas. A ideia que aparenta ao menos, era de que Capote queria escrever sobre o tema para o jornal, mas o que se vê é o início da concepção de A Sangue Frio (exemplo clássico do que é o jornalismo literário - um tipo de reportagem que mescla fatos reais acontecidos com um jeito de narrar definido como novelístico que se aproveita da subjetividade quase ausente na notícia, em outras palavras, uma espécie de literatura não-ficcional).

Junto dele vai sua “assistente” Nell H. Lee (na realidade amiga que o conhece realmente, diferente dos outros do grande círculo de amigos de Capote). Já dentro do vagão do trem, é possível perceber o quão necessitava de atenção e reconhecimento o jornalista: ele paga a um dos carregadores para que este elogie seu livro na frente da amiga. Ela, claro, nota no exato momento a “farsa” e critica de forma leve e irônica o comportamento deste.

Truman Capote é representado durante todo o filme da seguinte forma: um homossexual de voz muito efeminada, sedento pela atenção de todos (uma necessidade quase patológica) e um homem ambíguo, contraditório e até mesmo indecifrável. Aliás, essa busca pela fama e brilho (reconhecimento) percorre sua vida e torna-o cada vez mais insaciável (tendo aparições desta insaciedade até em Bonequinha de Luxo (1961), roteiro escrito pelo próprio jornalista contando a trajetória de uma moça em busca do sonho de ser uma atriz hollywoodiana).

Voltando ao filme, vemos que numa incansável investigação, Capote vai travando um duelo com Perry Smith, para que o assassino lhe forneça informações essenciais à reportagem. Pouco a pouco consegue as informações e adquire do rapaz uma confiança de amigo (algo importante de ressaltar-se é que ele mantém uma relação meio dúbia com o assassino; quer manter-se afastado apenas ajudando-o com um novo advogado, mas também parece sentir atração por ele e pelo perigo que este representa).

Compreendendo uma diagese de aproximadamente 4 anos, o filme Capote ainda mostra o relacionamento de Truman com seu parceiro Jack (apesar de Bennett Miller não se aprofundar ou não ter destacado nenhuma cena sobre a relação homossexual de dois homens bem-sucedidos nos anos 50 e 60). E um pouco da glória conquistada pelo pré-lançamento de seu livro sobre os assassinatos, no qual é nítido ver que após aplaudiram-no efusivamente, fica mais do que estampada sua nada modesta satisfação.

Além disso, por ter um relacionamento social invejável compessoas das mais altas classes (inclusive com divas do cinema como Marylin Monroe), Capote frequentava inúmeras festas em salões chiques. Festas estas nas quais o cigarro, a bebida (que em 1984 dizimou com a vida do jornalista) e as pessoas estavam sempre presentes, sendo que a já citada carência de necessidade ficava mais explícita ainda, ao vermos Capote fazendo com que as pessoas sempre ficassem a sua volta rindo de seus comentários ácidos e honestos (como ele mesmo diz).

Ainda em Capote, vemos que num diálogo relevante entre o assassino Perry Smith e Truman Capote, este último cita bem superficialmente um pouco sobre sua infância; ao falar da mãe e um pouco do padrasto. A critério de explicação vale relembrar que Capote teve problemas com a mãe que era alcoólatra e acabou cometendo suicídio (motivo este, pelo qual foi crido por uma tia no estado de Alabama). Seu pai também não era a virtude em pessoa. E assim, após o divórcio de seus pais, sua mãe se casou com um cubano, Joseph García Capote, de quem Truman tirou seu sobrenome (a propósito, Truman considerava o padrasto seu verdadeiro pai).

Ao final do filme, os assassinos são condenados à forca (sendo que antes Perry, que trocava muitas cartas com o protagonista, conta em detalhes o ocorrido em uma de suas conversas com Truman na cela; explicando os motivos do latrocínio: um roubo mal-fadado que inicialmente tinha a pretensão de conseguir 10 mil dólares e acabou apanhando míseros 40 ou 50 dólares). Capote volta desolado com a cena que presencia o enforcamento, e assim publica depois de alguns anos A sangue Frio.

Acerca da verossimilhança da vida rela de Truman e a representada no cinema, fica uma ou outra indagação: se Truman gostava tanto de se “mostrar”, de chamar atenção; como explicar suas maneiras muito finas e discretas no falar e movimentar? E depois, se ele era considerado um escritor maldito de língua ferina (odiado pela alta sociedade nova iorquina), como também explicar a situação deste em ser recebido com pompa em qualquer lugar que chegasse (como na cena em que é convidado a assistir a estréia de um filme)? Seria isso unicamente pelo seu prestígio como “jornalista honesto” em seus escritos? Não é algo bem contraditório (assim como a vida desse personagem)?

Para quem deseja conhecer um pouco mais (mesmo que sob a visão de Bennett) a vida e a carreira profissional de Truman Capote, a obra de 2005 é mais do que recomendada. A nós, que estudamos Comunicação, compreender a vida de um jornalista que inovou em seu tempo, criando um novo estilo, um novo gênero para se trabalhar na área jornalística (que em nada segue os padrões vigentes de objetividade e imparcialidade, aliás, a constituição do gênero por ser literária possibilita ao jornalista não apenas discursar sobre os fatos, mas também refletir sobre o que escreve), Capote dispensa recomendações.

Nada melhor do que uma das célebres frases de Truman Capote, para justificar plausivelmente o adjetivo “indecifrável” dado ao personagem principal desta resenha: “Não sou um santo. Sou um alcoólatra, um drogado, um homossexual e um gênio. Certamente, poderia ter sido todas essas quatro coisas e ter continuado sendo um santo. Só direi que não sou uma pessoa feliz. Só os imbecis ou os idiotas são felizes".
LOPES DA SILVA, Anderson
*Resenha crítica escrita para a disciplina de TEORIA DA COMUNICAÇÃO II, ministrada pela Prof. mestranda Regina Krauss

sábado, 5 de dezembro de 2009

*BREVÍSSIMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DA TELENOVELA BRASILEIRA

A atual telenovela é oriunda dos folhetins românticos que circulavam em jornais pela Europa e pelo Brasil. Passando pela radionovela, houve a transição desse gênero para o veículo chamado TV. Assim, desde as mais memóraveis radionovelas, tal narrativa atrai e de certo modo, influencia seu público receptor.
Por esse viés, chega-se a Teoria da Agenda Setting, na qual os veículos de comunicação massiva, as mídias e consequentemente o conteúdo neles expressos, influenciam o que será o assunto do dia. Em outras palavras, a Agenda Setting pauta nossas discussões sobre determinado tema ou assunto.
Vale fazer aqui uma consideração que em muito corrobora para a escolha da discussão de um assunto ou outro contido na telenovela. Surge assim, o que os téoricos e estudiosos da comunicação chamam de Merchandising Social.
A grosso modo, define-se como Merchandising Social a inserção de temas considerados de cunho social, como por exemplo, em "Viver a Vida" (de Manoel Carlos, na Rede Globo) a anorexia alcóolica é discutida como patologia presente na vida da personagem encenada por Bárbara Paz.
Isso leva a crer que de certa maneira o merchandising social reforça as ideias defendidas pela Teoria da Agenda Setting: questões que seriam difíceis de serem trabalhados e (assimilados) pelo público se fossem msotrados em outros programas, adquirem maior visibilidade quando apresentados em um programa televisivo de maior audiência na nossa cultura; a telenovela (principalmente a do horário nobre).
Um questionamento rápido e sem maiores implicâncias, cabe aqui acerca se o tratamento dado a temas polêmicos nas telenovelas brasileiras (como homossexualidade, alcoolismo, ética biogenética, etc.) não contribuem apenas para reforçar ainda mais estereótipos, rotulações e preconceitos sobre determinada situação.
De todo modo, também se faz necessário destacar o pensamento de Jesus Martín-Barbero (grande estudioso das questões comunicacionais focadas na recepção latino-americana), quando este afirma que o primeiro contato de inúmeras pessoas (com abixo nível de escolaridade e poder aquisitivo) com tais temas são realizados por intermédio da TV. Portanto. isso se torna mais plausível ao pensar quão grande é o "poder" que a televisão exerce na população brasileira, seja ele para esclarecer/informar ou seja ele apenas de entreter de forma mediada.
LOPES DA SILVA, Anderson
*Texto escrito no dia 28/12/2009 como avaliação da displina de TEORIA DA COMUNICAÇÃO II, ministrada pela Prof. mestranda Regina Krauss.

*BREVÍSSIMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS REALITIES SHOWS

O reality show à primeira vista se mostra como um termo um tanto quanto contraditório. Primeiro que de real não tem nada e depois, que um show (apresentação) envolve todos os elementos extraordinários que possibilitam ver algo fora do comum, algo que é feito para ser visto. Note o 'é feito".

Assim, outra importante consideração a ser lembrada, diz respeito a mistura de gêneros com audiência comprovada que permeiam a "construção" de um reality. Traduzindo: drama, humor, erotismo e outros mais, fazem parte constante dos conflitos e emoções "reais" de um BBB, Casa dos Artistas ou A Fazenda (mais recentemente). Outra clara mostra da presença da Indústria Cultural, que se serve daquilo que é sucesso pronto.

Juntando-se a isso, um conceito de Edgar Morin, intitulado "olimpianos" (para descrever as inacessíveis celebridades criadas pela cultura de massa) ocorre hoje de forma cada vez mais instantânea. Os realities shows produzem celeridades sem mérito algum, fulcrando-se assim em outro pensamento que define realísticamente (que ironia!) asituação que vivenciamos: a democracia radical de Braudillard, na qual todos (sem qualquer distinção ) teriam condições de se
transformarem em "olimpianos".

Para finalizar, outro questionamento que pode ser levantado, relaciona-se a tênue linha que separa o público do privado. Especificamente nos realities shows essa problemática envolve ainda a necessidade de saber, conhecer, bisbilhotar a vida do próximo (voyuerismo).

Em síntese, pode-se dizer que não existe melhr exemplificação para representar um simulacro do que um reality show (conceito também de Braudillard, que consiste em mostrar uma representação do real, uma falsa realidade que de tão falsa faz com que se creia que o vê é real).

LOPES DA SILVA, Anderson



*Texto escrito no dia 28/12/2009 como avaliação de TEORIA DA COMUNICAÇÃO II, ministrada pela Prof. mestranda Regina Krauss.

sábado, 4 de julho de 2009

O "MERCHAN" DAS 8

"A adolescente engravida e o pai da criança, seu namorado, sequer assume o filho deixando a precoce mãe solteira sem saber o que fazer. O jovem rapaz cadeirante sofre constantemente com a falta de acessibilidade e discriminação na escola, nas ruas e na sociedade. A família conservadora e preconceituosa não aceita a amizade da filha com a colega lésbica." Parece-lhe familiar esses tipos de situações?


Pois é, você certamente já deve ter visto alguma cena dessas nas telenovelas do horário nobre da Rede Globo (o chamado 'horário das 8 h' no qual as novelas sempre vão ao ar quase às 9 h). Isso se chama merchandising social e não tem nada a ver com a publicidade que ocorre nas novelas ou "merchandising comercial", a única aparência que guarda deste é o significado do termo merchandising: aparição quase implícita de produto ou, no caso do merchandising social, representação de algum tema de apelo social embutido na trama da novela de qualquer horário e emissora. Os mais comuns são: luta contra o alcoolismo e dependência química, defesa dos direitos dos deficentes, procura por crianças desaparecidas entre outros.


Assim, é possível analisar que a maioria dos autores de novelas das oito, se usa dessa tão recorrente fórmula e, que por sinal, tem resposta rápida, pois aumenta-se a audiência da novela e a população se intera de assuntos às vezes desconhecidos ou tidos como tabu.


Desse modo, Gilberto Braga, um dos autores mais famosos da tv brasileira, poderia ser considerado também o precursor no assunto nas nossas telenovelas. À época em que se passava a novela Vale Tudo (1988), apenas o México, com a maior produtora de telenovelas do planeta, a Televisa, havia recorrido à temáticas sociais em suas histórias. A personagem Heleninha Roitman (Renata Sorrah) de Vale Tudo, era alcoólatra e assim a questão do alcoolismo foi debatida e mostrada para todos.


Além dele, autores renomados como Manoel Carlos e Glória Perez, para ficar em poucos nomes, são mestres quando o assunto é merchandising social. Exemplos disso não faltam: basta rever alguns capítulos de Laços de Família (2001), Páginas da Vida (2007), O Clone(2002) e Caminho das Índias (que está no ar atualmente). Todas elas abordavam algum conteúdo com cunho social.


E o mais importante é a função educativa que tais 'merchans' realizam na sociedade, construindo valores e expondo assuntos que estão presentes na vida e no cotidiano do brasileiro. Além disso, grande parte da população tem por meio de informação apenas a televisão.


Por isso, é interessante refletir, como um produto que muitas vezes é criticado por alienar e apenas entreter a grande massa, possa produzir nela preocupação social e moral com os temas tratados nos seus capítulos?


É... já dizia McLuhan que a tv seria a grande 'construtora' da Aldeia Global, onde a individualização já não existiria mais e sim todos os atos e suas conseqüências passariam a ser coletivos. Mas será que ele sabia o quão complexa e contraditória se tornaria esse veículo? Acho que não...

POR: TV NET FACNOPAR (ANDERSON LOPES)